A Vida e a Infância de Tião Carreiro
José Dias Nunes, o Tião Carreiro, nasceu em 13 de dezembro de 1934, em Montes Claros, no norte de Minas Gerais. Filho dos lavradores Orcissio Dias Nunes e Júlia Alves das Neves, foi o quarto a nascer de um total de sete irmãos (Gumercindo, Ilda, Guilhermino, José Dias, Maria, Santina e Valdomiro). Era neto de Ricardo e Maria por parte de pai, e de José Alves e Porcidonia por parte de mãe.
Até os 10 anos de idade, morou na região do Vale do Jequitinhonha, passando por Monte Azul, Pajeú, Rebentão e Catuti. Durante a infância, não teve acesso a brinquedos industrializados, mas chamava a atenção pela criatividade: passava horas tentando decifrar os sons que produzia ao esticar elásticos reciclados de botinas velhas sobre pedaços de madeira, revelando desde cedo sua imensa musicalidade.
A seca extrema fez com que a família migrasse em um caminhão pau-de-arara para São Paulo. Fizeram paradas em Paulópolis e Oriente, mas, devido à morte de seu Orcissio, mudaram-se para Flórida Paulista e, posteriormente, Valparaíso. Foi lá que Tião, aos 16 anos, decidiu trocar o cabo da enxada pelo braço da viola. Para ajudar no sustento da casa, intercalava o trabalho agrícola com funções como a de garçom, aproveitando para encantar a clientela tocando sambas e músicas populares ao violão. Na juventude, também morou em Araçatuba, onde conheceu Nair Avanço nas festas juninas de 1953, com quem se casou 14 meses depois.
O Início da Carreira e o Nome Artístico
A trajetória artística teve início após ele se apresentar no programa "Assim Canta o Sertão", em uma rádio local. Antes de adotar o nome que o consagraria, ele se apresentou sob diversas alcunhas: foi "Zezinho" (na dupla Zezinho e Lenço Verde), "Zé Mineiro", "João Carreiro", e também "Palmeirinha" (formando parcerias com Coqueirinho e, depois, Tietezinho).
O batismo definitivo de Tião Carreiro ocorreu em 1954, por sugestão de Teddy Vieira, então diretor da RCA Victor e parceiro de grandes composições. O novo nome também caiu como uma luva para a dobradinha formada entre Tião e Carreirinho, parceria que rendeu a gravação de nove discos de 78 rpm e um LP ainda na década de 1950.
A Criação do Pagode e o Estilo Inconfundível
Violeiro intuitivo e autodidata, Tião Carreiro nunca frequentou escola de música. Tinha o dom de escrever letras com cheiro de terra e mato, além de se cercar de grandes poetas caipiras, como Lourival dos Santos, Moacyr dos Santos, Dino Franco e o próprio Teddy Vieira.
Seu destino estava mesmo traçado nas cordas da viola. Em 1959, na cidade de Maringá (PR), Tião criou um ponteado diferente que revolucionou a música sertaneja. Tratava-se de uma mistura do recorte do catira com o recortado mineiro. Teddy Vieira batizou esse novo ritmo de "Pagode", que teve seu primeiro registro em disco em 1960, com a antológica "Pagode em Brasília".
Tião inventou uma forma original de tocar. Desenvolveu uma batida inconfundível, introduções e arranjos valiosos. Versátil, gravou moda de viola, cururu, cateretê, valseado, querumana e até tango. Mais tarde, abraçou ritmos como guarânias, rasqueados e balanços. Ele também inovou na forma de cantar, colocando a segunda voz (a mais grave) em maior destaque do que a primeira, um estilo que seria seguido por inúmeros outros artistas.
Legado e Despedida
Tião Carreiro foi fundamental para a popularização da música sertaneja, tirando o gênero das madrugadas do rádio e levando-o para teatros, rodeios, exposições e para o horário nobre da televisão.
Ao longo de sua vida, gravou extensa discografia:
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27 discos de 78 rpm (sendo 9 com Carreirinho);
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41 LPs;
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Parcerias notáveis com Carreirinho, Paraíso (com quem gravou 4 LPs), Praiano, além de discos solo;
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Diversas compilações e compactos.
Entre seus sucessos atemporais estão: Pagode em Brasília, Amargurado, Chora Viola, Rei do Gado, Boi Soberano, Estrela de Ouro, Raízes do Amor, Preto Velho, Navalha na Carne, Encantos da Natureza, Rancho do Vale e Rio de L ágrimas.
Tião Carreiro faleceu no dia 15 de outubro de 1993, vítima de complicações causadas pelo diabetes. Foi sepultado no cemitério da Lapa, em São Paulo (SP), onde foi erguido um memorial em sua homenagem. Até hoje, em todo Dia de Finados, incontáveis fãs se reúnem ao redor de seu túmulo, passando horas cantando seu repertório e celebrando o músico completo que tocou como poucos e cantou como ninguém.